domingo, 27 de fevereiro de 2011

Durante a nossa infância é o momento talvez que mais se consolidam os nossos ídolos, heróis, as lembranças mais fortes sejam elas boas ou más, e têm também os personagens que compõe a nossa história, alguns são tão marcantes que a gente não sabe direito se eles são os protagonistas participantes de nossas vidas ou se somos nós das vidas delas.
Convivi um bom tempo com uma pessoa assim, ela chama-se Maurina, tinha um salão de cabeleireiro perto da minha casa e adorava ir lá por dois motivos, gostava de ouvir as fofocas derramadas por aquele mulheril que freqüentava o estabelecimento e também, por que, Maurina nutriu em mim uma paixão pelas as musicas de Gilberto Gil.
Ela odiava quando aprendi a cantar a musica Marina do Gil e fazia o trocadilho na letra como o seu nome, mas ela era uma mulher como dizer, uma jóia, rara, bruta, pessoa que não fora moldada por nenhum tipo de grupo que tenta nos castrar, tinha o que dizer e dizia sem tomar conhecimento se aquilo que disesse fosse ferir fosse quem fosse, mas ela tinha uma qualidade especial, era amiga, não amiga nos tempos bons, era amiga para toda hora e boa conselheira com seu jeito rústico.
Maurina aprendeu a compor seus próprios romances, talvez fosse a materialização das histórias cantadas por Chico Buarque, pois geralmente a gente costuma a se alimentar do que sonha, ela se alimentava do que vivia , e sempre dizia: “Eu já sofri muito na mão de homem, agora eu só quero eles para me darem prazer, se começar a se acostumar e querer trazer escova de dente eu boto para fora de casa e do meu coração.
Era um deleite para a mulherada que tinha uma narradora de sua própria vida que se confundia com aquela literatura de banca de jornal que as mulheres adoravam, era quase que uma torcida organizada, expressando seu sentimento quando Maurina contava suas histórias com alguns momentos de glória, inúmeros dissabores e claro suas voltas por cima, mas ela era tida como marginal por muitas mulheres do bairro e talvez em contrapartida desejada por muitos homens, era uma mulher que vivia no sentindo verdadeiro da palavra e quase sempre é classifica como uma espécie de bandida por está fora dos padrões morais nos quais nos ensinam.
Aquela mulher tinha um sonho que se definiu claro para mim depois de anos, ela queria ser mãe, mas infelizmente por impossibilidades ela não tinha essa chance, não tinha? Ah amigos era mulher guerreira e como disse vivia o que falava, ou vice-versa, pois um dia apareceu um garoto de nome Tiago na nossa rua, foi apresentando para gente no começo como sobrinho de Maurina, mas com o passar dos ano   substitui o tia por mãe e ela dizia, “Olha molecada ensina o Tinzinho a subir em árvore, pega-pega ,esconde-esconde, só não ensina a tocar companhia dos outros, senão os pais dirão que não sei educar, é claro que fizemos questão de dar-lhe essa matéria como lição e foram assim tantas outras. O mais curioso que Tiago por ter uma mãe supostamente mundana, algumas mulheres da rua a chamavam de vadia até, foi o primeiro garoto da rua a ir para a faculdade e naquela época isso era raro, tanto que quem ia cursa universidade virara celebridade e então os comentários mudaram, “quem diria com uma mãe daquelas o menino não pegou nada de errado é milagre, tinha que ser adotado, pois se fosse do mesmo sangue dela, seria um marginal, mas o que elas não perceberam por ter suas mentes julgadoras e línguas afiadas, era que Maurina antes de tudo dera amor e abundância aquele garoto, sempre que íamos lá brincar ou estudar com ele éramos bem recebidos e víamos os carinhos e proteção de mãe que deixavam muitos de nós com inveja.
Mas como em todas as histórias essa antagonistas da minha vida um dia sem mais nem menos decidiu se mudar sem avisar ninguém, talvez cansou de provar para as pessoas que não tinha que provar nada. Alguns dizem que ela foi para o Rio de Janeiro, outros para Santos, pois o sonho dela era viver perto do mar. Para mim não importa muito para onde foi, queria apenas se pudesse lhe dar um abraço por ter me ensinado a gostar de Chico, Gil, deixar mesmo com o protesto de meu pai, eu ler os gibis que existiam no seu salão, e dizer, que pessoas como ela puras, sinceras e que sabem enxergar a vida com a realidade necessária deixaram marcas eternas aqui nesse meu combalido coração.

Paulo Valadares

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