sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011



Prisioneira de Si

A xícara na qual ela sorvia deliciosamente seu café soltou-se
De seus dedos e mergulhou naquele mar de cerâmica verde, seu
Corpo parecia enrijecer, suas mãos trêmulas. Quem a visse
Naquele instante perceberia manifestação de vida apenas nos olhos,
Que arregalados expressavam espanto, medo e desespero por
Não saber o que acontecia.

Num esforço que antes parecia tão simples agora exigiu algo
Sobrenatural, as pernas não obedeciam, queria gritar, clamar por
Ajuda, mas nenhum dos seus sensos lhe obedecia, nem uma
Lágrima que antes sentida na calma de suas lembranças não conseguia
 rolar naquele rosto estático que herdera momentaneamente uma expressão
 cômica, que avistara no espelho enfrente a si, mas nem ri de sua própria
tragédia conseguia.

Era como se tivesse a sensação de está presa dentro de si, é
Como se daquele momento em diante o mundo que ela tanto almejava,
O mundo do eu, da solidão fosse encontrado, mas era como chefe de
Estado desse mundo que ela queria baixar um decreto revogando esse desejo,
Queria saltar para fora dali, mas seu corpo ganhara, ou perdera vida
Própria, e se rebelara.

Foi encontrada por seu neto com o olhar ainda vazio de desespero, mas que
 aos poucos foi dando lugar ao instinto de sobrevivência, foi recolhida ao
hospital mais próximo e depois de uma bateria extensa de exames veio o veredito,
sofrera AVC. Depois daquilo jamais voltou a ser a mesma, alguns dos movimentos
voltaram depois de longas sessões de fisioterapia, mas as terapias para a alma não
deram certo, ela ainda mantinha o olhar perdido, parecendo não ter encontrado o eu,
de retorno ao mundo exterior. Hoje em dia ela não escuta mais suas melodias, não
tem ânimo e saúde para estudar sua filosofia e espera apenas que sua alma em liberdade
saia de uma vez por todas deixando a clausura como nos antigos e belos dias e vá 
recuperar o tempo que infelizmente por entre seus dedos como a xícara se esvaia.

Paulo Valadares

2 comentários:

  1. Olá, Paulo, não li o seu texto, bebi!
    Lembrei da minha avó querida que já se foi há algum tempo, por causa dela desenvolvi um carinho todo especial pelos idosos.
    Parabéns pelo texto, espero sua visita mais vezes.
    Beijos!

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  2. Seu texto nos leva a pensar no sofrimento alheio que um dia poderá ser o nosso.
    Poético, mas triste.
    Real, mas difícil.
    Verídico, mas muito emotivo.

    Parabéns

    lucianoesposto.blogspot.com

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