quarta-feira, 9 de março de 2011



A Parede
Na parede pintei um quadro, mas não sou pintor
E tudo ficou abstrato, até pra mim.
Na parede coloquei um prego e nele pendurei um Relógio.
Não criei o tempo, mas posso fingir que o Controlo.
Na parede coloquei outro prego e pendurei um retrato.
De quem? Não sei, ou melhor, não acho que sei,
comprei Numa feira apenas por que o rosto tinha belos olhos,
 o rosto Era bonito, mas os olhos eram isso e aquilo de fantástico.

Na parede fiz calendário. Vi minha voz passar por fios.
Na parede vi uma rede e nela balançava uma formiga toda agitada
Enquanto a aranha dona da rede esperava que sua presa se cansasse.
A parede tem organismo, tem pulsação, toca de canos, ratos, baratas.

Na parede vi as marcas do tempo e o tanto que a cobriram com tinta
Para disfarçar sua idade.

Os mendigos não têm paredes ou quase nunca tem.

Na parede preguei mais dois pregos, dessa vez um de cada lado.
Armei minha rede deitei embalado pela a parede que ficou ali
Calada refletindo o que eu pensava. De repente a parede desaba
No momento em que divagava entre a muralha da China e o muro
De Berlim. Enfim a parede podia no mínimo ter ficado calada, mas
Jamais ter protestado assim.

Paulo Valadares

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